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O cuidar e o sentimento de culpa

Um conceito muito conhecido entre os analistas é o do sentimento de culpa, presente em muitos discursos dos analisandos. Porém, para muito além do divã, já pude presenciar em trabalhos de grupo, situações onde o sentimento de culpa minava no pensamento dos cuidadores de idosos. O sentimento de culpa era tamanho que chegavam a somatização com tamanha angústia. Sua grande maioria eram cuidadores de parentesco com os pacientes, em geral filhos, netos e cônjuges. Acredito que tal vínculo poderia justificar, a certo modo, a amplitude da cobrança pessoal e o sentimento de culpa presente na fala dos mesmos.

Em seus relatos parecia haver uma insatisfação em como conduziam os cuidados com seus familiares. Se sentiam muitas vezes responsáveis por “insucessos” com seus idosos. Um exemplo era os relatos de queda acidental ou quando o idoso perdia muito peso rapidamente. O sentimento de culpa pode ser visto como um diálogo do ego e o superego, onde muitas vezes nosso superego projeta uma imagem e ela pode “cair por terra”. Exemplo disso é quando idealizamos o que seria um cuidar ideal. Este, por mais bem intencionado, não é possível. Como seres humanos somos faltosos e quando precisamos lidar com essas faltas a angústia nos invade.

É o que ocorre em muitos casos com os cuidadores. O sofrimento em não poder dar tudo o que gostaria para seu familiar é em muitos casos frustrante em suas falas. O que agrava mais a situação do sentimento de culpa é a ênfase ao envelhecer e o luto. Saber que você cuida de uma pessoa que biologicamente está caminhando para sua trajetória final é um reforçador desse sentimento, fazendo o cuidador se questionar se está suprindo as faltas necessárias de seu ente querido, afim de lhe proporcionar o final de vida digno.

A cada traço de suposto “fracasso” ou até mesmo a pouca ajuda de demais familiares e amigos, pode fazer com que além do sentimento de culpa, esse cuidador venha se sentir depressivo. É muita exigência ao ego! Então, como lidar com o sentimento de culpa?

Acredito que o primeiro modo é observar onde você vem se culpando ou até mesmo culpando o outro. Se questione até onde sua imagem de cuidar permite falhas. Se sentir que o caminho é árduo, busque ajuda profissional. A partir de um conhecimento maior sobre si mesmo você poderá se entender e entender a forma como lida com o cuidar do outro e principalmente de si mesmo. Uma vez que você se cobra demais, isso lhe adoece gerando a culpa e outros sentimentos que em excesso sobrecarregam sua mente e corpo.

O cuidar pode ser um processo de muitos impasses, dificuldades características dos quadros clínicos existentes na terceira idade além de ser um processo que nos faz pensar em nossas próprias limitações como humanos e nos faz refletir arduamente sobre o envelhecer, a culpa e o luto. E se esse processo pode ser árduo por um lado, pode ter belezas por outro, uma vez que nos permitimos lidar melhor com nossas próprias faltas. Lembre-se: o cuidar começa de dentro para fora.

Renata Isabela Evangelista – Psicóloga e Psicanalista

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